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Trancistas entrelaçam autoestima, ancestralidade e identidade negra

“Trança é uma reparação histórica, é um ato de resistência”, este é o relato de Jéssica Mayara Paiva de Oliveira, mais conhecida como Pretta Soul, trancista e fundadora do Studio Aruandê. Aos 34 anos, a artista, que atua com a técnica há mais de duas décadas, conta que começou a trançar aos 13, influenciada pela cultura hip hop e pela convivência com amigos e vizinhos. “Eu treinava na cabeça do meu irmão, minha cobaia, e também porque eu dançava break. Era bem comum ver o estilo tomando conta da cultura”, relembra.

Mesmo enfrentando barreiras sociais e econômicas na adolescência, ela sempre mostrou interesse pela arte de fazer tranças e as técnicas aplicadas. “Geralmente quem usava trança era taxado como rebelde, maloqueiro. Era o ‘vagabundo preto’”, diz. Ela afirma que o preconceito racial associado aos cabelos crespos e à estética afro dificultava a valorização dos penteados, além da escassez de materiais e de clientela: “Eu cobrava cinco reais, e ainda era difícil achar quem fizesse”.

Mãe adolescente, Pretta precisou interromper a carreira como trancista para trabalhar com carteira assinada e, após alguns anos, voltou ao ofício. “Com a graninha da rescisão, comprei materiais e separei um cantinho da sala para atender. De dia, fazia trança, de noite, vendia cachorro-quente”, conta. O antigo ponto da lanchonete virou o Studio Aruandê, espaço que hoje serve como salão, centro cultural e local de formação no coração da Cidade Alta, em Natal.

“Além de ser um espaço de beleza, é também um espaço sociocultural. A gente promove ações culturais e sociais”, diz. Um dos projetos desenvolvidos é o Ancestralidade e Cultura Através das Tranças, que oferece formação gratuita em comunidades periféricas.

Para ela, a valorização das tranças cresceu nos últimos anos, impulsionada pelo aumento da autoaceitação e da oferta de materiais e técnicas. “A indústria da química começou a perder força, e as tranças ganharam espaço. Hoje há catálogos imensos, com vários tipos de cabelo. Em Natal, já existem de três a quatro lojas especializadas”, afirma. Ela também comemora a recente oficialização da profissão: “Foi aprovada a lei onde trancista agora é profissão”.

A rotina, no entanto, ainda é desafiadora. “A gente é trancista, faxineira, estoquista, marqueteira. Edita reels, faz agendamento, tudo. E nem sempre dá para pagar um social media. É complicado”, relata. A dificuldade se intensifica pela falta de tempo para estudar e se aperfeiçoar: “Ou você atende para ter dinheiro ou para tudo para estudar. É puxado”.

O reconhecimento, contudo, motiva a seguir. “Cada vez que vejo uma cliente se olhar no espelho e se achar linda, eu fico emocionada. Muitas chegam chorando, com a autoestima baixa. As tranças resgatam. Para ela se sentir assim, ela precisou de mim, das minhas mãos, do meu talento”, explica. A relação é também espiritual: “Sempre peço licença ao Orí, à cabeça. É troca de energia. É muito mais que um penteado”.

A construção da identidade racial também é um ponto central na trajetória de Jéssica. “Só aprendi a ser uma mulher negra depois dos 30 anos. Tive que aprender com amigos negros, porque na minha família ninguém ensinava isso. A gente só era discriminado, ninguém dizia que preto tinha valor”, relata. Hoje, ela busca ensinar à filha e à mãe a história que não foi transmitida: “Minha mãe fica feliz em ver o quanto cresci no meio da cultura preta. Eu sou rica de conhecimento, sou rica de cultura”.

A trancista também revela que todas as suas referências vêm das mulheres negras que vieram antes: “Todas as mulheres negras que fizeram história sempre vão ser minha referência. Toda a honra às mães velhas, às nossas matriarcas”.

Em meio a conversas, penteados e criação de conteúdo, Jéssica reafirma seu propósito no meio da beleza: “Espero que todas as mulheres negras consumam sua arte, suas raízes, seu passado. É lindo. Nossa cultura é ancestral”.

Em São Gonçalo do Amarante, Syanne Oliveira, de 21 anos, decidiu mudar o visual durante a pandemia e encontrou nas tranças uma forma de se expressar, trabalhar e fortalecer vínculos. “Comecei porque queria mudar. Eu estava muito enjoada porque estava sempre com o mesmo cabelo que era raspadinho na lateral e eu pensei: ‘nossa, eu preciso mudar’”, conta. Ao se deparar com os altos preços cobrados pelo serviço, decidiu aprender a trançar.

“Eu não trabalhava, era apenas uma estudante. Então eu decidi aprender a fazer isso”, relata. Com vídeos da internet e testes em si mesma, ela iniciou o processo de aprendizado. “Eu tentava também estudar um pouco sobre, porque quando eu comecei a fazer tranças, eu vi que tinha vários tipos. Tinha nagô, box braid, tranças com linha, com jumbo, com várias coisas”.

Syanne relata que a primeira cliente foi sua própria mãe. “Ela sempre foi uma pessoa que alisava muito cabelo, tinha vergonha do próprio cabelo, não podia ver o seu cabelo natural e depois que eu comecei a fazer trança, ela começou a aceitar isso”. Ela conta ainda que o procedimento foi além da estética: “Queria trazer também o autoconhecimento de que o seu negro ele é maravilhoso, por mais que ela tenha aprendido que não, por conta de vários preconceitos que a sociedade impôs”.

Ao ser questionada sobre o apoio da família, ela afirma que se tornou sua maior rede de apoio, enfatizando principalmente o apoio da mãe. “Minha mãe está disponível para eu testar todos os cabelos e loucuras que eu penso na minha cabeça. Ela é uma pessoa que eu sempre vi muita garra […] tenho certeza que se não tivesse a minha mãe, não teria toda a conexão que existe na minha família”. Com emoção, completa: “poder trazer autoestima para ela de volta, através da trança, para mim é uma das coisas mais gratificantes que eu posso sentir”.

Syanne também conta que cobra preços abaixo da média. “Eu gosto desse contato com as pessoas e é isso que realmente me faz ficar feliz, sabe? Ver as pessoas se sentindo bonitas com algo que é delas”. Segundo ela, cerca de 90% das clientes são mulheres pretas que enfrentaram situações como alisamentos e bullying. “Ver o sorriso delas tipo: ‘eu tô gata’, para mim, é gratificante”.

A relação com o próprio cabelo também foi marcada por preconceitos. “Quando eu era pequena eu sofria muito com o bullying porque toda e qualquer criança preta sofre com isso, infelizmente, porque vem de um preconceito não das crianças, mas dos pais que impõem esses preconceitos sobre as crianças”.

Ela relata que, ao trançar, faz questão de colocar vários espelhos. “O brilho vai surgindo […] ver esse brilho surgindo gradativamente no olhar da pessoa é uma coisa maravilhosa”.

Syanne explica também por que opta por atender em domicílio. “Como estou trabalhando, quase não tenho tempo para respirar. Justamente por esse motivo, prefiro que as pessoas vão até a minha casa, para que eu possa ter o mínimo de conforto e poder ter um tempinho de qualidade maior para mim”.
Mesmo praticando a atividade esporadicamente, ela ainda se reconhece na arte. “Eu reconheço meu trabalho como trancista, por mais que eu não esteja exercendo o trabalho como trancista ultimamente. Eu o vejo como arte, porque é um trabalho minucioso, e toda arte é minuciosa”. Para ela, “a arte está sempre em volta de mim”.

A trancista também defende que a história seja respeitada. “Muitas pessoas não conhecem nossa história. Faço questão de estar sempre falando e contando um pouco enquanto trabalho. Gostaria que as pessoas compreendessem que, para que hoje exista essa facilidade, esse acesso, esse reconhecimento, teve muita luta, teve muita gente que morreu, teve muita gente que sofreu”, afirma. “Não é só uma modinha de agora, é uma história”.

O trabalho de mulheres como Pretta Soul e Syanne Oliveira mostra que trançar vai muito além da estética: é um gesto de cura, resistência e afirmação. Em cada mecha entrelaçada estão histórias de superação, saberes ancestrais e um compromisso com a valorização da identidade negra. Reconhecer e apoiar essas artistas é também reconhecer a importância da cultura afrodescendente na formação de todo um povo e na construção de um futuro mais justo. Celebrar as tranças é celebrar a força, a beleza e a história viva do povo negro potiguar.

 

Fonte: Agora RN

 

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