Quando o ultradireitista José Antonio Kast atravessar o pátio do Palácio de La Moneda, em Santiago, nesta quarta-feira, para iniciar seu governo, a cena marcará uma mudança simbólica e política na história recente do Chile. Embora a cerimônia formal de posse ocorra em Valparaíso, sede do Congresso, é no edifício que se tornou símbolo da ruptura institucional de 1973 que muitos analistas veem o início de um novo ciclo político.
O palácio presidencial foi bombardeado durante o golpe que derrubou o governo de Salvador Allende e abriu caminho para a ditadura de Augusto Pinochet. Agora, passa a ser ocupado por um presidente que votou pelo “Sim” no plebiscito de 1988, consulta popular em que o “Não” derrotou Pinochet e abriu caminho para a redemocratização do país.
Para o cientista político Cristóbal Bellolio, a chegada de Kast ao poder indica que a política chilena deixou de se organizar prioritariamente em torno da divisão entre defensores e opositores da ditadura.
“Durante 30 anos, a divisão democrático-autoritária foi o eixo da política chilena. Bastava saber como alguém votou em 1988 para entender seu lugar no sistema”, afirma. “Essa clivagem não desapareceu moralmente, mas deixou de organizar o comportamento eleitoral.”
Segundo Bellolio, um novo marco passou a orientar o debate político no país: o ciclo constituinte iniciado após a onda de protestos de 2019 e encerrado em 2022, quando a proposta de nova Constituição foi rejeitada pela população durante o governo de Gabriel Boric.
A proposta constitucional havia surgido em meio a mobilizações populares que questionavam o modelo econômico e institucional chileno e buscavam substituir a Carta herdada do período militar. O fracasso da iniciativa, no entanto, revelou dificuldades do governo de esquerda em transformar mobilização social em apoio político duradouro.
Para o sociólogo chileno Dario Quiroga, especialista em comportamento eleitoral, o momento representou uma inflexão estrutural no país.
“Foi uma erupção política muito potente, mas também caótica. Depois se construiu um relato que associou aquele ciclo à desordem permanente, o que desgastou profundamente a esquerda”, afirma. “A eleição não foi disputada em torno da ditadura, mas de segurança, imigração e ordem pública.”
O analista político Axel Callís avalia que o cenário reflete uma mudança nas prioridades do eleitorado.
“Durante o ciclo constituinte, o debate girava em torno de direitos sociais e transformações estruturais. Após a pandemia e com o aumento da criminalidade, a prioridade virou a sobrevivência cotidiana. As pessoas querem ordem”, afirma.
Ele também destaca o impacto da ampliação da participação eleitoral. Com o voto obrigatório e comparecimento de cerca de 85% do eleitorado, um segmento menos ideológico passou a influenciar mais decisivamente o resultado das urnas.
A ascensão de Kast também reacende debates sobre memória histórica. Para Rodrigo Córdova, chefe de reportagem da revista The Clinic, o novo governo terá de conviver com rituais institucionais e datas simbólicas ligadas ao passado autoritário.
“O calendário do Estado não desaparece. O 11 de setembro de 1973 continua sendo uma referência central na memória política do país”, afirma.
No campo conservador, observadores apontam diferenças na linguagem usada pelo novo presidente ao tratar do período militar. O jornalista Héctor Cossio destaca que Kast prefere se referir ao regime de Pinochet como “governo militar”, e não como ditadura.
Para o historiador Fabián Bustamonte, que pesquisa movimentos de ultradireita, a agenda política do novo governo também reflete uma matriz ideológica ligada ao catolicismo conservador presente em setores da elite chilena.
“Essa visão molda posições sobre família, autoridade e costumes. Não se trata apenas de segurança pública, mas de um projeto de sociedade”, afirma.
Especialistas em memória histórica alertam para possíveis mudanças na prioridade dada às políticas de preservação da memória da ditadura. Francisco Estévez, ex-diretor executivo do Museu da Memória e dos Direitos Humanos, afirma que essas políticas foram construídas como política de Estado ao longo de décadas, mas podem perder centralidade.
“A memória não desaparece de um dia para o outro. Ela pode ser deslocada”, diz.
Marcelo Acevedo, presidente do sítio de memória do Estádio Nacional do Chile, avalia que a chegada de um presidente que apoiou o “Sim” em 1988 reabre disputas sobre a narrativa oficial da redemocratização.
“O revisionismo aparece hoje como relativização ou deslocamento de prioridades. A questão é qual memória terá legitimidade pública.”
Além das tensões internas, o novo ciclo político chileno também deverá ser observado no cenário internacional. Analistas apontam que o governo Kast poderá enfrentar pressões caso busque um alinhamento ideológico mais explícito com a direita global, especialmente com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Segundo Bellolio, o Chile construiu sua política externa com base em estabilidade institucional e multilateralismo, o que pode entrar em tensão com eventuais reposicionamentos ideológicos.
O cientista político brasileiro Luciano Gomes dos Santos afirma que a eleição de Kast também deve ser interpretada dentro de uma dinâmica regional mais ampla.
“O que vemos na América Latina não é uma hegemonia ideológica, mas uma alternância acelerada. O eleitor tornou-se mais pragmático e vota a partir de problemas concretos, como inflação, segurança e desemprego”, afirma.
Nesse cenário, o novo presidente chileno terá de equilibrar a identidade ideológica que o projetou politicamente com a necessidade de governar para um eleitorado mais amplo.
“Kast construiu sua liderança rompendo com a direita tradicional”, diz Bellolio. “O desafio agora será governar sem se limitar à base mais dura que o levou ao poder.”
Fonte: Agora RN
Fique por dentro das principais notícias do dia na sua região e no mundo. Entre na comunidade oficial da Rádio 102 FM e mantenha-se sempre informado. -> (CLIQUE AQUI)