Conteúdos que incentivam ou simulam violência contra mulheres têm se multiplicado nas redes sociais e levantado preocupações entre pesquisadores e autoridades. Estudos recentes apontam que a misoginia digital vem ganhando espaço em plataformas de vídeo e redes sociais, impulsionada tanto por tendências virais quanto pela atuação de canais dedicados a discursos machistas.
Levantamento do Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais (NetLab), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), indica que canais que promovem discursos de ódio contra mulheres registraram crescimento no número de seguidores e visualizações.
Segundo a pesquisa, a circulação desses conteúdos não apenas permanece ativa nas plataformas, como também apresenta aumento no número de inscritos, publicações e interações.
Em outra frente, especialistas observam o surgimento de tendências virais que simulam agressões ou ameaças contra mulheres. Em alguns desses vídeos, homens aparecem encenando situações em que utilizam armas ou facas para intimidar mulheres após rejeição em relacionamentos.
De acordo com o NetLab, foram identificados 17 canais no YouTube dedicados à misoginia em 2024, e a maioria deles segue ativa. Entre os conteúdos analisados, pesquisadores observaram crescimento expressivo de audiência.
O estudo aponta que 90% desses canais permanecem disponíveis, e que o público que acompanha esse tipo de conteúdo também aumentou. Estima-se que cerca de 19,5 milhões de inscritos estejam vinculados a esses perfis, dos quais 23 milhões são homens com até 23 anos.
Essas contas publicaram aproximadamente 2,5 mil vídeos, que juntos somam cerca de 130 mil horas de conteúdo.
Segundo pesquisadores, muitos desses influenciadores apresentam discursos que reforçam controle sobre mulheres, deslegitimam movimentos feministas e estimulam comportamentos hostis nas relações de gênero.
Além da produção de vídeos, alguns desses criadores também lucram com transmissões ao vivo, venda de cursos e publicidade.
“As plataformas têm sido negligentes em relação às ações de ódio e de desinformação. Não queremos censura, queremos compromisso com a democracia e com os direitos humanos”, afirmou Marie Santini, diretora do NetLab, em declaração ao jornal O Globo.
De acordo com os pesquisadores, os dados analisados indicam que parte desses conteúdos vem sendo recomendada automaticamente pelas próprias plataformas, ampliando sua circulação.
Outro ponto de preocupação é o surgimento de tendências virais no TikTok e em outras redes sociais. Em alguns vídeos, homens aparecem apontando armas ou facas enquanto simulam ameaças a mulheres em situações fictícias de rejeição.
Em certos casos, as gravações incluem legendas sugerindo violência caso as mulheres não correspondam aos pedidos de namoro ou relacionamento.
Para especialistas, esse tipo de conteúdo pode contribuir para a banalização da violência de gênero.
A pesquisadora Yasmin Curzi, professora da Fundação Getulio Vargas (FGV) Direito Rio, avalia que esse tipo de material pode reforçar a naturalização da violência.
“É uma forma de normalização do assassinato de mulheres, que passa a ser tratado como algo banal”, afirmou.
Diante da circulação desses conteúdos, autoridades também passaram a acompanhar o fenômeno.
A Polícia Federal abriu investigação preliminar sobre vídeos que simulam ataques a mulheres e que circularam amplamente nas redes sociais.
Segundo a corporação, a análise busca identificar possíveis crimes e avaliar se os conteúdos configuram incitação à violência ou apologia ao crime.
O Ministério da Justiça também acompanha o tema e informou que monitora conteúdos que possam violar a legislação brasileira.
Já as plataformas afirmam que removem publicações que violam suas políticas de uso. O TikTok declarou que conteúdos que incentivem violência ou apresentem ameaças são proibidos e podem ser retirados após análise.
Mesmo com essas medidas, pesquisadores apontam que o desafio permanece, especialmente diante da velocidade de circulação de conteúdos nas redes e do alcance que determinadas tendências podem alcançar.
Especialistas defendem que o debate sobre misoginia digital deve envolver não apenas medidas de moderação, mas também educação midiática e ações voltadas à prevenção da violência de gênero.
Fonte: AgoraRN
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