O ex-jogador e comentarista Walter Casagrande estreou neste fim de semana o monólogo Na Marca do Pênalti, apresentado no Festival de Teatro de Curitiba, em uma nova etapa de sua trajetória profissional. Sozinho no palco e sem roteiro fixo, ele conduziu a apresentação em formato de conversa com o público, abordando episódios de sua vida pessoal e carreira no futebol .
A proposta rompe com estruturas tradicionais do teatro. Casagrande optou por não contracenar e dispensou texto decorado, sustentando o espetáculo por meio de improviso e apoio pontual de imagens históricas projetadas. “Não sou um ator, não tenho o hábito de memorizar falas. Comecei como comentarista na televisão e sempre fiz apresentações ao vivo, até hoje eu prefiro”, afirmou . A decisão foi testada previamente em uma apresentação para convidados ligados ao Sport Club Corinthians Paulista, incluindo ex-jogadores, o que validou o formato.
O projeto foi desenvolvido em parceria com o diretor Fernando Philbert, que identificou no ex-atleta potencial narrativo para o palco. Segundo o encenador, a ausência de ensaio formal contribuiu para a dinâmica da peça. “Se tivesse ensaiado, não seria tão potente. Casagrande tem o teatro dentro dele porque é um ótimo contador de histórias”, declarou .
Durante a apresentação, Casagrande revisita momentos centrais de sua trajetória, incluindo a participação na Democracia Corintiana, movimento ocorrido entre 1982 e 1984 ao lado de jogadores como Sócrates, Wladimir Rodrigues dos Santos e Zenon. Ele relembra o contexto político da época e as consequências enfrentadas. “Sofremos represália, fomos perseguidos, fichados no DOPS, sofríamos com espionagem dentro do Corinthians”, disse .
Outro eixo do monólogo é o período de dependência química e o processo de reabilitação iniciado em 2007. Casagrande relata a internação de um ano e as dificuldades do tratamento. “Patinei para caramba, às vezes achava que não ia conseguir”, afirmou . A retomada incluiu a aproximação com atividades culturais, como cinema e teatro, que passaram a integrar sua rotina.
O formato aberto da peça permite inserções sobre temas atuais, incluindo futebol. O ex-jogador admite a possibilidade de comentar assuntos contemporâneos durante as apresentações, como o desempenho da seleção brasileira e opiniões sobre atletas como Neymar. “Minhas opiniões são públicas, não tenho nada a esconder”, afirmou .
A estreia ocorreu no Teatro Guaíra, espaço com capacidade para cerca de 2,2 mil pessoas. A iniciativa marca a ampliação da presença de Casagrande no campo cultural, após trajetória consolidada no futebol, na televisão e na literatura, com três livros publicados em parceria com o jornalista Gilvan Ribeiro.
Fonte: Por O Correio de Hoje