A possibilidade de os Estados Unidos elevarem para até 37,5% as tarifas sobre parte das exportações brasileiras acendeu um sinal de alerta em setores estratégicos da economia do Rio Grande do Norte. Entre os segmentos mais preocupados estão a indústria salineira e a cadeia do pescado, que já vinham acompanhando com apreensão os desdobramentos da política comercial adotada pelo governo norte-americano.
Levantamento divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que 31,6% das exportações brasileiras para os Estados Unidos poderão ser submetidas a uma tarifa adicional de 37,5% caso sejam implementadas as medidas propostas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), sigla em inglês. Atualmente, muitos desses produtos estão sujeitos a uma tarifa de 10%.
Se confirmadas, as novas cobranças elevarão significativamente os custos de acesso ao mercado americano e poderão atingir setores exportadores que dependem da competitividade internacional para manter operações e empregos.
A preocupação é ainda maior porque os Estados Unidos figuram entre os principais destinos de exportações de produtos industrializados e de maior valor agregado do Brasil. Para o Rio Grande do Norte, os reflexos podem alcançar especialmente dois setores que possuem forte presença no comércio exterior: o sal marinho e o pescado.
O Estado responde por mais de 95% da produção nacional de sal marinho e possui uma das principais cadeias exportadoras de pescados do País, com destaque para atum, peixe fresco, lagosta e outros produtos destinados aos mercados internacionais.

Embora as propostas do USTR ainda estejam em fase de consulta pública e dependam de decisão final do governo americano, representantes dos setores produtivos avaliam que a simples possibilidade de aumento tarifário já gera insegurança para contratos, investimentos e planejamento de exportações.
O presidente da CNI, Ricardo Alban, afirmou que a medida tende a produzir impactos negativos tanto para empresas brasileiras quanto para compradores americanos.
“A eventual imposição de novas tarifas não beneficia nenhum dos lados. Elas aumentariam custos para empresas, reduziriam a competitividade e criariam incertezas para investimentos. O caminho mais eficiente é o diálogo, baseado em critérios técnicos e na busca de soluções que preservem uma parceria econômica estratégica para ambos os países”, declarou.
No caso do Rio Grande do Norte, o setor pesqueiro acompanha o tema com preocupação desde os primeiros anúncios de endurecimento comercial por parte dos Estados Unidos.
Em entrevistas concedidas anteriormente ao Agora RN, o presidente do Sindicato da Indústria da Pesca do Rio Grande do Norte (Sindipesca-RN), Arimar França Filho, alertou que medidas tarifárias adicionais podem comprometer a competitividade dos produtos brasileiros diante de concorrentes internacionais que possuem acesso mais favorável ao mercado norte-americano. “O mercado dos Estados Unidos representa uma vitrine importante para o pescado brasileiro e qualquer elevação de custos tende a reduzir margens de negociação e dificultar a manutenção de contratos”, disse Arimar França.

A cadeia pesqueira potiguar já enfrenta desafios relacionados ao aumento de custos logísticos, exigências sanitárias internacionais e oscilações cambiais. Um novo aumento tarifário poderia ampliar essas dificuldades em um momento de forte concorrência global.
Situação semelhante é observada na indústria salineira. O Rio Grande do Norte concentra a maior produção de sal marinho do País e possui papel relevante no abastecimento de mercados nacionais e internacionais.
Em declarações anteriores ao Agora RN, o presidente do Sindicato da Indústria da Extração do Sal do Rio Grande do Norte (Siesal-RN), Airton Torres, alertou que o aumento das barreiras comerciais pode reduzir a competitividade do produto brasileiro justamente em um período de busca por ampliação de mercados externos. “A avaliação do setor é que a imposição de tarifas mais elevadas não afeta apenas os volumes exportados, mas também o ambiente de investimentos e a previsibilidade necessária para expansão da atividade”, destacou Airton Torres.
As medidas propostas pelos Estados Unidos têm origem em duas investigações conduzidas pelo USTR.
A primeira concluiu que práticas brasileiras relacionadas ao comércio digital, tarifas preferenciais, propriedade intelectual, combate à corrupção, acesso ao etanol e políticas ambientais seriam restritivas ao comércio americano. Como consequência, foi sugerida uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, com exceções para determinados itens, como café, carne e suco de laranja.

A segunda investigação trata de alegações relacionadas ao combate ao trabalho forçado. Nesse caso, a proposta prevê uma sobretaxa adicional de 12,5% para produtos oriundos de países que, segundo a avaliação do órgão, não aplicam restrições consideradas suficientes à importação de bens produzidos sob essas condições.
Quando as duas medidas incidem simultaneamente sobre um mesmo produto, a tarifa adicional total pode atingir 37,5%. Segundo a CNI, se consideradas também as tarifas setoriais já existentes sob a Seção 232 da legislação americana, mais da metade das exportações brasileiras para os Estados Unidos poderá ficar sujeita a algum tipo de tributação adicional.
O tema será debatido em audiências públicas promovidas pelo USTR nos dias 6 e 7 de julho. Empresas, entidades empresariais e governos poderão apresentar manifestações e argumentos antes da decisão final da administração americana.
Enquanto isso, setores exportadores do Rio Grande do Norte acompanham com atenção o desenrolar das discussões. Para empresários do sal e do pescado, o risco não está apenas no aumento das tarifas, mas na possibilidade de perda de competitividade em um dos mercados mais relevantes do mundo.
Em um cenário de concorrência global cada vez mais acirrada, a elevação dos custos de acesso aos Estados Unidos pode redirecionar fluxos comerciais, reduzir margens de exportação e exigir novas estratégias de diversificação de mercados para empresas potiguares. Para um Estado cuja economia mantém forte relação com atividades exportadoras, o desfecho das negociações será acompanhado de perto nas próximas semanas.
Fonte: Agora RN