A cidade que um dia sonhou em ser a primeira da América Latina 100% abastecida por suas águas subterrâneas hoje vê rios assoreados, lagoas de captação transformadas em depósitos de lixo e esgoto sendo lançado diretamente em áreas urbanas — inclusive em bairros que têm rede instalada há mais de 20 anos. A realidade do saneamento básico no Rio Grande do Norte expõe um retrato nacional desconfortável: o abastecimento de água avança, mas o restante do sistema segue emperrado entre omissões técnicas, falta de planejamento urbano e ausência de consciência coletiva.
A denúncia parte de quem conhece os bastidores há décadas. O engenheiro sanitarista Sérgio Pinheiro, com longa trajetória à frente de órgãos técnicos e autor de artigos e livros sobre o tema, escreveu recentemente o capítulo potiguar da obra “Os Novos Rumos do Saneamento”, organizada por especialistas de todo o Brasil e publicada pela Editora Synergia. O livro, segundo ele, é uma tentativa de unir história e realidade — de mostrar como o saneamento moldou as cidades e como o descaso ameaça desmontar tudo.
“O saneamento marcou a história de Natal. Algumas obras fundamentais aconteceram ainda no século XIX, mas os nomes que as tornaram possíveis foram apagados”, diz Pinheiro. Entre os esquecidos, ele cita o engenheiro Henrique de Novaes, que, em 1924, já havia diagnosticado a capacidade de Natal para abastecimento pleno por água subterrânea. Novaes estudou os mananciais do Jiqui, projetou a locação da hoje Avenida Ayrton Senna para trazer água até a capital e sugeriu a criação da Via de Contorno. “Ele previu uma cidade muito além do seu tempo. Mas seu nome sumiu dos mapas e da memória”, lamenta.
O apagamento da história, no entanto, é apenas uma parte do problema. O que realmente preocupa são os números do presente. O abastecimento de água em áreas urbanas do RN chega a 97% ou 98%, patamar próximo da meta de 99% estabelecida pelo novo marco legal do saneamento. Mas esse avanço esconde desequilíbrios graves. O esgotamento sanitário, por exemplo, ainda atende apenas entre 40% e 50% da população — o que significa que metade dos resíduos gerados todos os dias ainda correm a céu aberto, contaminando solo, ar e água.
Mais preocupante é o que se vê na base do sistema. “A drenagem urbana é um caos em quase todos os municípios”, afirma Pinheiro. Apenas Natal possui plano diretor específico para o tema. Em cidades menores, a drenagem sequer entra na pauta técnica. O impacto é direto: ruas alagadas, bueiros entupidos, rios assoreados e mananciais comprometidos. O engenheiro relembra o recente caso de uma audiência na Câmara de Parnamirim sobre o assoreamento do rio Pitimbu. “Não adianta olhar para o rio se ninguém controla o que está sendo feito morro acima”, diz.
Os exemplos são concretos. Um grande centro comercial, como a Havan, implantou um sistema de infiltração das águas pluviais no próprio lote, assumindo custos e cuidados. Já prédios vizinhos e até igrejas em construção direcionam a água da chuva diretamente para a rua. Com as chuvas, parte desse volume escorre sem controle para dentro do Pitimbu — levando resíduos e provocando erosão nas margens. “É preciso entender que quem compromete o sistema de drenagem hoje está afetando o abastecimento de amanhã”, alerta.
Outro gargalo é o destino dos resíduos sólidos. Segundo o engenheiro, cerca de 50% dos municípios do RN já destinam seus resíduos para aterros sanitários. Em volume, graças à atuação de cidades maiores, como Natal e Mossoró, 70% do lixo do Estado já tem destinação adequada. Mas os lixões ainda existem. E com eles, o drama social dos catadores. Pinheiro, atualmente colabora com um programa da Secretaria Estadual de Meio Ambiente para inclusão socioeconômica desses trabalhadores no ciclo de reciclagem.
O problema se agrava quando esgoto e lixo se misturam — e isso ocorre com frequência nas lagoas de captação urbanas. “As pessoas jogam esgoto em lagoas de drenagem, o que gera contaminação, doenças e mosquitos”, explica. Há regiões da cidade que têm rede de esgoto desde o início dos anos 2000, como Nova Descoberta e Morro Branco. Mas parte da população nunca se conectou, mesmo com tarifas acessíveis e incentivos oferecidos por um acordo entre a Prefeitura de Natal e a Caern. “Às vezes por falta de recurso, mas muitas vezes por comodismo”, admite.
A consequência é distribuída com democracia cruel. “Os vetores do saneamento — mosquitos, ratos, doenças — não atacam só quem joga esgoto onde não deve. Eles atingem todos que vivem próximos àquele ponto”, afirma. Pinheiro defende campanhas permanentes de conscientização e fiscalização eficiente. “A cidade precisa cobrar de si mesma mais responsabilidade. A omissão custa caro. E cobra em saúde.”
Entre as iniciativas em andamento, ele destaca a parceria público-privada que a Caern estrutura com apoio do BNDES para ampliar a cobertura de esgotamento sanitário. A meta é universalizar o atendimento até 2033, conforme o novo marco legal. Mas ele alerta que, sem um plano integrado que contemple também drenagem e resíduos sólidos, o avanço do esgoto por si só será incompleto. “Saneamento não é só encanamento. É ecossistema urbano.”
Ao mesmo tempo, o livro recém-lançado tenta garantir que a história dos que começaram esse trabalho não se perca de novo. “Resgatar nomes como Henrique de Novaes, Florio Dória e tantos outros não é apenas um ato de justiça. É também uma maneira de lembrar que alguém já se importou com esse assunto antes de nós. E que não faz sentido retroceder.”
A realidade, como ele mostra, é que o Brasil que constrói saneamento pela metade ainda insiste em pagar o preço inteiro. Seja em forma de doenças, enchentes ou silêncio. E, como lembra o título do capítulo escrito por Pinheiro, quando se ignora a memória, o futuro também escorre pelo ralo.
Fonte: Agora RN