As melhores rádios: FM 102.7 FM 95.9 FM 90.9 AM 1470

Sistema Rural de Comunicação

Rádios
do Grupo

Sem drenagem, coleta e consciência: o País do saneamento básico inacabado

A cidade que um dia sonhou em ser a primeira da América Latina 100% abastecida por suas águas subterrâneas hoje vê rios assoreados, lagoas de captação transformadas em depósitos de lixo e esgoto sendo lançado diretamente em áreas urbanas — inclusive em bairros que têm rede instalada há mais de 20 anos. A realidade do saneamento básico no Rio Grande do Norte expõe um retrato nacional desconfortável: o abastecimento de água avança, mas o restante do sistema segue emperrado entre omissões técnicas, falta de planejamento urbano e ausência de consciência coletiva.

A denúncia parte de quem conhece os bastidores há décadas. O engenheiro sanitarista Sérgio Pinheiro, com longa trajetória à frente de órgãos técnicos e autor de artigos e livros sobre o tema, escreveu recentemente o capítulo potiguar da obra “Os Novos Rumos do Saneamento”, organizada por especialistas de todo o Brasil e publicada pela Editora Synergia. O livro, segundo ele, é uma tentativa de unir história e realidade — de mostrar como o saneamento moldou as cidades e como o descaso ameaça desmontar tudo.

“O saneamento marcou a história de Natal. Algumas obras fundamentais aconteceram ainda no século XIX, mas os nomes que as tornaram possíveis foram apagados”, diz Pinheiro. Entre os esquecidos, ele cita o engenheiro Henrique de Novaes, que, em 1924, já havia diagnosticado a capacidade de Natal para abastecimento pleno por água subterrânea. Novaes estudou os mananciais do Jiqui, projetou a locação da hoje Avenida Ayrton Senna para trazer água até a capital e sugeriu a criação da Via de Contorno. “Ele previu uma cidade muito além do seu tempo. Mas seu nome sumiu dos mapas e da memória”, lamenta.

O apagamento da história, no entanto, é apenas uma parte do problema. O que realmente preocupa são os números do presente. O abastecimento de água em áreas urbanas do RN chega a 97% ou 98%, patamar próximo da meta de 99% estabelecida pelo novo marco legal do saneamento. Mas esse avanço esconde desequilíbrios graves. O esgotamento sanitário, por exemplo, ainda atende apenas entre 40% e 50% da população — o que significa que metade dos resíduos gerados todos os dias ainda correm a céu aberto, contaminando solo, ar e água.

Mais preocupante é o que se vê na base do sistema. “A drenagem urbana é um caos em quase todos os municípios”, afirma Pinheiro. Apenas Natal possui plano diretor específico para o tema. Em cidades menores, a drenagem sequer entra na pauta técnica. O impacto é direto: ruas alagadas, bueiros entupidos, rios assoreados e mananciais comprometidos. O engenheiro relembra o recente caso de uma audiência na Câmara de Parnamirim sobre o assoreamento do rio Pitimbu. “Não adianta olhar para o rio se ninguém controla o que está sendo feito morro acima”, diz.

Os exemplos são concretos. Um grande centro comercial, como a Havan, implantou um sistema de infiltração das águas pluviais no próprio lote, assumindo custos e cuidados. Já prédios vizinhos e até igrejas em construção direcionam a água da chuva diretamente para a rua. Com as chuvas, parte desse volume escorre sem controle para dentro do Pitimbu — levando resíduos e provocando erosão nas margens. “É preciso entender que quem compromete o sistema de drenagem hoje está afetando o abastecimento de amanhã”, alerta.

Outro gargalo é o destino dos resíduos sólidos. Segundo o engenheiro, cerca de 50% dos municípios do RN já destinam seus resíduos para aterros sanitários. Em volume, graças à atuação de cidades maiores, como Natal e Mossoró, 70% do lixo do Estado já tem destinação adequada. Mas os lixões ainda existem. E com eles, o drama social dos catadores. Pinheiro, atualmente colabora com um programa da Secretaria Estadual de Meio Ambiente para inclusão socioeconômica desses trabalhadores no ciclo de reciclagem.

O problema se agrava quando esgoto e lixo se misturam — e isso ocorre com frequência nas lagoas de captação urbanas. “As pessoas jogam esgoto em lagoas de drenagem, o que gera contaminação, doenças e mosquitos”, explica. Há regiões da cidade que têm rede de esgoto desde o início dos anos 2000, como Nova Descoberta e Morro Branco. Mas parte da população nunca se conectou, mesmo com tarifas acessíveis e incentivos oferecidos por um acordo entre a Prefeitura de Natal e a Caern. “Às vezes por falta de recurso, mas muitas vezes por comodismo”, admite.

A consequência é distribuída com democracia cruel. “Os vetores do saneamento — mosquitos, ratos, doenças — não atacam só quem joga esgoto onde não deve. Eles atingem todos que vivem próximos àquele ponto”, afirma. Pinheiro defende campanhas permanentes de conscientização e fiscalização eficiente. “A cidade precisa cobrar de si mesma mais responsabilidade. A omissão custa caro. E cobra em saúde.”

Entre as iniciativas em andamento, ele destaca a parceria público-privada que a Caern estrutura com apoio do BNDES para ampliar a cobertura de esgotamento sanitário. A meta é universalizar o atendimento até 2033, conforme o novo marco legal. Mas ele alerta que, sem um plano integrado que contemple também drenagem e resíduos sólidos, o avanço do esgoto por si só será incompleto. “Saneamento não é só encanamento. É ecossistema urbano.”

Ao mesmo tempo, o livro recém-lançado tenta garantir que a história dos que começaram esse trabalho não se perca de novo. “Resgatar nomes como Henrique de Novaes, Florio Dória e tantos outros não é apenas um ato de justiça. É também uma maneira de lembrar que alguém já se importou com esse assunto antes de nós. E que não faz sentido retroceder.”

A realidade, como ele mostra, é que o Brasil que constrói saneamento pela metade ainda insiste em pagar o preço inteiro. Seja em forma de doenças, enchentes ou silêncio. E, como lembra o título do capítulo escrito por Pinheiro, quando se ignora a memória, o futuro também escorre pelo ralo.

 

Fonte: Agora RN

 

Acompanhe as notícias do dia! Entre na comunidade da Rádio Rural 102 FM no WhatsApp e mantenha-se sempre informado. -> (Clique Aqui)

Compartilhe nas rede sociais

Mais notícias

Brasil enfrenta Panamá no Maracanã em último jogo no país antes da Copa do Mundo

Prefeitura de Caicó anuncia ajustes na estrutura administrativa

Geraldo Alckmin anuncia saída do Ministério da Indústria no dia 4 para ficar apto à disputa eleitoral

Latino e equipe sofrem acidente de ônibus em rodovia no interior de São Paulo

Ponte entre Alto do Rodrigues e Carnaubais é interditada pelo DER; veja rotas alternativas

Olá, como podemos te ajudar?