Em “Ele não muda mais”, a cantora e compositora potiguar Vannya Marques aborda de forma direta a violência doméstica e os ciclos de abuso vividos por milhares de mulheres no Brasil. Inspirada na história real de uma sobrevivente potiguar — identificada simbolicamente como Regina —, a composição é um grito de alerta e está disponível em plataformas digitais. De Carnaubais, a artista encoraja as vítimas de relacionamentos abusivos e violentos a não se calarem diante das agressões físicas e/ou psicológicas.
“Essa história muitas mulheres vivem. Regina foi vítima de um relacionamento de dois anos com um homem agressivo, ciumento e possessivo. Apanhava por qualquer motivo, especialmente na cabeça, para que as marcas não ficassem visíveis. Se ela olhasse para o lado ou ouvisse uma música, ele dizia que estava olhando ou pensando em outro”, relatou.
Segundo Vannya, o agressor mantinha um padrão típico dos casos de violência doméstica: espancava e, em seguida, chorava, pedia perdão e declarava amor, tentando manipular a vítima emocionalmente. “Ele fazia homenagens com carro de som, levava flores e chocolates, mas as agressões só aumentavam, até mesmo na frente da filha deles. Para a família, ele era o homem perfeito. Se Regina aparecesse com hematomas, ninguém acreditaria que tivesse sido ele”.
A última agressão quase foi fatal: Regina teve o braço e ossos do rosto fraturados e ficou em coma por um mês e 17 dias. O agressor fugiu, acreditando que ela estivesse morta. Ao acordar, segundo Vannya, Regina agradeceu por ter sobrevivido e reconhecido o risco de morte: “Obrigada, Deus, por me dar a chance de entender que ele ia me matar. Ele não ama nem a si mesmo… como podia me amar?”.
Hoje, Regina vive com a filha em outro país e reconstruiu a vida ao lado de uma nova família, segundo Vannya. “Essa música é uma carta aberta para todas as ‘Reginas’ do mundo. Quem ama não machuca. Denunciem. Não esperem perder a vida”, alertou.
O lançamento de “Ele não muda mais” ocorre num contexto alarmante de violência doméstica no RN. Somente em 2024, o canal Disque 180 registrou 10.276 atendimentos no Estado, segundo dados do Governo Federal — um aumento de 13,7% em comparação com 2023. O número representa um aumento de 13,7% dos casos, em relação ao registrado em 2023. A maioria das vítimas é de mulheres pretas e pardas (866) e os principais autores das agressões são companheiros ou ex-companheiros (478).
Apesar disso, o número de denúncias formais caiu: foram 1.574 neste ano, contra 1.686 no ano passado. A maioria (1.425) ocorreu por telefone; outras 103, via WhatsApp. Mais da metade dos relatos foi feita pela própria vítima (850); o restante por terceiros (724). A casa da vítima continua sendo o principal local das agressões: 643 casos ocorreram nesse ambiente, enquanto 560 aconteceram em residências compartilhadas com os agressores.
A canção de Vannya Marques se soma a outras obras marcantes da música brasileira que transformaram histórias de violência em denúncia pública e resistência. Em 2015, a cantora e compositora Elza Soares lançou “Maria da Vila Matilde”. Vítima da violência doméstica, Elza canta “você vai se arrepender de levantar a mão pra mim” e ameaça ligar para o 180 para denunciar o agressor retratado na letra da música.
Nos anos 1980, a banda Nenhum de Nós retrata uma jovem que sofre violência física e psicológica nas mãos do namorado em “Camila, Camila”. Com versos como “eu que tenho medo até de suas mãos / a vergonha do espelho naquelas marcas”, traz o peso do sofrimento da adolescente. Já a roqueira Pitty, em “Na Sua Estante”, critica a objetificação feminina em relações afetivas abusivas nos versos “não sou só mais uma página / na sua estante”.
Até mesmo canções vistas inicialmente como românticas ganharam nova leitura com o tempo. É o caso de “Como Eu Quero”, sucesso da banda Kid Abelha em 1984, que expõe manipulação emocional com versos como: “cê tá numa cilada / é cada um por si / você por mim e mais nada”.
Fonte: Agora Brasil