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Safra de grãos 2026/2027 no RN deve cair 3,6% e ficar em 47,6 toneladas

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que a safra de grãos 2026/2027 do Rio Grande do Norte deve atingir 47,6 mil toneladas, uma queda de 3,6% em relação ao ciclo anterior, quando o volume foi de 49,4 mil toneladas. De acordo com a Federação da Agricultura, Pecuária e Pesca do Estado (Faern), isso se deve à redução da área cultivada e pela retração da produtividade média, influenciada pelo feijão-caupi.
Em todo o país, a Conab estima que a produção de grãos na safra 2026/2027 alcance 367,1 milhões de toneladas, alta de 1,4% em relação ao ciclo anterior. A área a ser semeada deve aumentar 2,3%, chegando a 85,4 milhões de hectares.

No Rio Grande do Norte, a área cultivada estimada é de 105,7 mil hectares, 2,7% menor que a do ciclo anterior de 108,9 mil hectares. A produtividade, por sua vez, deve passar de 455 kg/ha para 450 kg/ha, uma queda de 1,1%. Segundo a Faern, o principal fator para a redução é o comportamento do feijão-caupi de segunda safra. A previsão é de que haja uma redução de 5,5% na área cultivada e de 13% na produtividade, resultando em uma queda de 17,8% na produção, passando de 15,7 mil para 12,9 mil toneladas.

A entidade pontua que a retração merece atenção porque o feijão-caupi tem grande presença na agricultura familiar e importância para o consumo e a renda de milhares de produtores. “Trata-se de uma cultura amplamente distribuída pelo território estadual, ainda que existam concentrações recentes em municípios como Santo Antônio, Guamaré, Mossoró, São Miguel do Gostoso e São Gonçalo do Amarante.”

Por outro lado, como o cultivo ainda será realizado ao longo do ciclo 2026/2027, a Federação ressalta que a redução não representa uma perda já ocorrida, mas uma expectativa inicial de menor área cultivada e de condições menos favoráveis ao rendimento. “A concretização desse cenário dependerá da regularidade das chuvas, do momento do plantio e das condições de desenvolvimento das lavouras”, destaca.

Para o titular da Secretaria de Estado da Agricultura, da Pecuária e da Pesca do Rio Grande do Norte (Sape/RN), Guilherme Saldanha, a queda na estimativa para é resultado da distribuição desigual das chuvas. Apesar disso, ele avalia que os dados da Conab refletem o trabalho realizado pela pasta junto aos pequenos agricultores por meio do Programa Banco de Sementes.

O secretário aponta, ainda, que a utilização de áreas voltadas à produção de melão e melancia para o cultivo de grãos durante o inverno também tem contribuído para melhorar o cenário local. “Com essa rotação de culturas, [é possível] diminuir a quantidade de pragas existentes no solo, além de aproveitar todos os adubos que foram utilizados na produção do melão e melancia”, diz ele. “A infraestrutura de irrigação também tem permitido que mesmo em anos de chuvas irregulares a nossa produção de grãos não caia muito no estado”, completa.

Compensação


A Faern destaca que a perda de aproximadamente 2,8 mil toneladas é parcialmente compensada pelos resultados positivos do arroz, do algodão e do milho. “Também é importante considerar que a produção potiguar de grãos ocorre sobre uma base relativamente limitada.”

O estado responde por cerca de 0,14% da produção nordestina projetada, e milho e feijão representam aproximadamente 94% do volume estadual. “Por isso, alterações nessas duas culturas têm forte influência sobre o resultado agregado”, completa.

Segundo a Conab, a produção de milho deve crescer 0,6%, passando de 31,8 mil para 32 mil toneladas. A área deve recuar 0,8%, enquanto a produtividade deve aumentar 1,4%. Já o arroz, deve subir de 800 para 1,3 mil toneladas (+62,5%). O algodão deve manter a área estimada de cultivo estável com1,2 mil hectares.

A Faern avalia que os resultados das três culturas são positivos,. No caso do milho, a estabilidade relativa é sustentada pela expectativa de maior rendimento, cenário semelhante do algodão, que, apesar de não apresentar expansão da área cultivada, deve registrar crescimento de 27,5% na produção de caroço, com aumento de 19,8% na produtividade.

A Conab projeta aumento simultâneo de 33,3% da área cultivada desse grão, e de 28,7% da produtividade. “O levantamento classifica toda a produção potiguar de arroz como irrigada, o que reduz a dependência direta das chuvas, embora mantenha a cultura condicionada à disponibilidade de água e aos custos de bombeamento”, completa.

Impacto é maior para os pequenos produtores

Embora a Conab não detalhe as estimativas por porte de produção, a Faern avalia que os efeitos da queda na safra devem ser maiores entre agricultores familiares e produtores de menor escala. Isso porque os pequenos produtores costumam estar mais expostos ao regime de sequeiro e têm menor capacidade de absorver perdas, devido às limitações de acesso à irrigação, ao crédito, ao seguro rural e à assistência técnica.

A avaliação também considera dados do Censo Agropecuário de 2017, segundo os quais a agricultura familiar reunia cerca de 85% dos estabelecimentos produtores de feijão-caupi no estado e respondia por aproximadamente 79% da quantidade produzida. No milho, representava aproximadamente 84% dos estabelecimentos e 70% da produção. “Embora esses dados sejam estruturais e não retratem especificamente a safra atual, eles demonstram a forte presença da agricultura familiar nessas culturas”, completa a Faern.

Na avaliação do presidente da Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Rio Grande do Norte (Fetarn), Erivan do Carmo, a queda na estimativa da safra está relacionada à distribuição desigual da quadra chuvosa no estado, e os impactos já são observados entre os trabalhadores da agricultura familiar. “(O ciclo desigual do inverno) tem impactado a agricultura familiar tanto em relação à safra quanto em relação à ração animal. Então vivemos esse impacto na agricultura familiar em decorrência, principalmente, da oscilação do período chuvoso e da alta temperatura que tivemos nos últimos meses”, destaca.

A Faern ressalta que fatores como o El Niño, com perspectiva de permanência até o início de 2027, influenciam o planejamento da safra, mas os efeitos definitivos sobre a produção ainda não podem ser mensurados. “No Rio Grande do Norte, onde milho e feijão são predominantemente cultivados em sequeiro, o resultado dependerá menos do volume total de chuva e mais de sua distribuição durante a implantação, floração e enchimento dos grãos”, explica.

A entidade diz que o primeiro levantamento deve ser entendido como uma referência inicial, sujeita a revisões ao longo da safra. Em relação à disponibilidade hídrica, aponta que esse fator é relevante para o arroz irrigado, mas a cultura representa uma parcela pequena da produção estadual de grãos. Por outro lado, o principal risco para milho e o feijão continua sendo a falta de umidade no solo no momento adequado. “A avaliação da Faern é que o cenário exige cautela, monitoramento climático permanente e instrumentos de proteção ao produtor, especialmente assistência técnica, crédito adequado, seguro rural, garantia de renda e orientação para que o plantio ocorra nas janelas de menor risco”, frisa a entidade.

FONTE TRIBUNA DO NORTE

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