O Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro caminha para dar um salto tecnológico e qualitativo no cuidado com a audição. Sob a coordenação das professoras Sheila Balen, do Departamento de Fonoaudiologia e do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (LAIS/UFRN), e Deborah Viviane Ferrari, do Departamento de Fonoaudiologia, Faculdade de Odontologia de Bauru (USP). o Ecossistema Rede Reab.LITA surge com o objetivo central de desenvolver e disponibilizar uma plataforma tecnológica nacional — “o Ouvir Brasil”, acessível em celulares e tablets — para o uso na identificação precoce da perda auditiva, na educação em saúde, na vigilância epidemiológica e na avaliação dos resultados de reabilitação em todo o país.
O projeto conta com fomento do Departamento de Ciência e Tecnologia (DECIT) do Ministério da Saúde, sob gerência do CNPq e da Finep e representa a consolidação de uma trajetória colaborativa que teve como ponto de partida a adaptação científica do teste de dígitos no ruído para o português brasileiro. O teste é utilizado internacionalmente para triagem auditiva e serve de base para o aplicativo global hearWHO, disponibilizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Como um dos primeiros resultados do projeto, o teste em português foi agregado ao aplicativo da OMS possibilitando acesso aos brasileiros e outros países lusófonos a esta ferramenta, possibilitando acesso aos brasileiros a esta ferramenta.

A partir dessa etapa inicial de tradução e validação do teste para o Português Brasileiro, em parceria com redes internacionais e instituições de referência, a Rede Reab.LITA vem estruturando um conjunto robusto de ferramentas digitais desenvolvidas especificamente para as características do público brasileiro, voltadas tanto para o cidadão quanto para os profissionais de saúde que atuam nas unidades básicas de saúde voltados aos serviços especializados para pessoas com deficiência auditiva, assim como para outros profissionais que atuam em escolas.
O desafio, agora através do “Ouvir Brasil”, é levar para uma única plataforma tecnológica não apenas a possibilidade de realizar testes que identifiquem uma eventual deficiência auditiva naquela pessoa, mas diversos outros parâmetros de cada indivíduo, e que ao serem agregados permitam a dimensão do problema da deficiência auditiva numa comunidade, por exemplo, ou no país.
A plataforma torna-se ferramenta essencial, inclusive, no desenvolvimento de políticas públicas transversais à medida que parte da identificação de um problema individual, e agrupa os demais dados que permitam aos profissionais e os gestores obterem uma percepção coletiva capaz de apontar inclusive as eventuais causas de situações atípicas naquela determinada comunidade ou camada da sociedade.
A Dra. Sheila Balen, professora do curso de Fonoaudiologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e do Programa de Pós-graduação em Fonoaudiologia (UFPB e UFRN), destaca que a pesquisa inclui não apenas o desenvolvimento das ferramentas destinadas à plataforma “Ouvir Brasil”, mas a compatibilidade deste aplicativo a aparelhos celulares e/ou tablets que usam o sistema android.
A explicação, nesse caso, reside no custo desses equipamentos, mais acessível e mais viável economicamente. Um dos olhares dos pesquisadores é exatamente levar a plataforma a equipamentos com tecnologia compatível, e com o menor custo possível, facilitando seu uso em larga escala e de forma plural.
Ao comentar a abrangência e o impacto da iniciativa diante de tantos desafios, a coordenadora-geral, professora Dra. Sheila Andreoli Balen, destacou o esforço coletivo por trás dos resultados: “Esta pesquisa reflete a força da Ciência colaborativa no Brasil. A união de instituições de excelência, pesquisadores renomados e estudantes dedicados em torno de um objetivo comum: entregar ao SUS um produto robusto, seguro e de alto rigor científico, capaz de transformar a realidade da saúde auditiva em todas as regiões do país.”
Para compreender a urgência e a relevância da iniciativa, é preciso olhar para a magnitude dos dados estatísticos que cercam a saúde auditiva. Em âmbito global, a Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 430 milhões de pessoas vivem com perda auditiva incapacitante, com uma concentração expressiva em países de baixa e média renda.
O impacto financeiro dessa condição é alarmante, ultrapassando a marca de US$ 981 bilhões em custos globais de perda auditiva não tratada. Por outro lado, o cenário traz um alento analítico ao revelar que aproximadamente 60% das causas de perda auditiva na infância são totalmente evitáveis.
No contexto brasileiro, os números detalham gargalos históricos que sobrecarregam o sistema público e retardam o suporte adequado aos cidadãos. Dados epidemiológicos apontam que aproximadamente 6% da população brasileira apresenta perda auditiva incapacitante, taxa que pode saltar para até 16% entre os escolares.

Além disso, o fluxo assistencial sofre com atrasos e distorções severas, como o fato de candidatos ao uso de Aparelho de Amplificação Sonora Individual (AASI) levarem em média 7,6 anos para buscar ajuda especializada. A ineficiência operacional também se reflete no encaminhamento para a média e alta complexidade, onde cerca de 25% dos indivíduos possuem, na verdade, audição perfeitamente normal.
Em serviços auditivos credenciados ao SUS no Rio Grande do Norte, identificou-se recentemente que mais da metade (55%) dos atendimentos anuais eram de pacientes com audição normal. Paralelamente, a cobertura de triagem em escolares permanece criticamente baixa, com índices próximos de zero em diversas regiões, e apenas 47,7% dos recém-nascidos que falham na triagem neonatal chegam de fato aos serviços especializados. Nesse contexto, as ferramentas em desenvolvimento no Ouvir Brasil permitirão uma radiografia do cenário e eventual correção do fluxo dessa pessoa dentro da rede de saúde.
Para solucionar esse quadro de ineficiência e ampliar o acesso, o ecossistema integra soluções como o aplicativo “Ouvir Brasil” para autoteste e uso facilitado, o “Ouvir Brasil Pro” voltado para agentes comunitários de saúde e equipes da atenção primária, e o Aud.it, focado na triagem lúdica de pré-escolares com audiometria automatizada, além de ferramentas de telemetria e gestão epidemiológica como o ‘Sonar’ e o ‘Analytics’.
O projeto articula a atuação conjunta da UFRN com a Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB/USP), a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e a Universidade Federal de Sergipe
(UFS – Campus Lagarto) e compõe um dos Projetos da Rede SisAssistiva do MCTI/FINEP e DECIT/CNPq. Essa rede integrada visa expandir o rastreio auditivo para escolas, unidades básicas de saúde e comunidades vulneráveis, qualificando a demanda da Atenção Primária, otimizando recursos públicos e fortalecendo a soberania tecnológica do país na área da saúde.
No Brasil, não há dados nacionais suficientemente robustos para dimensionar a ocorrência da perda auditiva na população. As informações do Censo são baseadas na dificuldade auditiva auto relatada, o que pode levar à subestimação do problema. Isso acontece porque a perda auditiva, muitas vezes, se instala de forma lenta e progressiva, e nem sempre as pessoas percebem que estão ouvindo menos. Por isso, a necessidade de ferramentas de triagem auditiva que sejam confiáveis, cientificamente validadas, acessíveis e que possam ser utilizadas em larga escala.

É nesse contexto que se destaca o teste de dígitos no ruído, que está no coração do aplicativo “Ouvir Brasil”. Esse teste permite identificar possíveis dificuldades auditivas de maneira rápida, utilizando um smartphone e fones de ouvido. O diferencial do “Ouvir Brasil” é que ele foi desenvolvido considerando as características e necessidades da população brasileira, incluindo pessoas com diferentes níveis de escolaridade e familiaridade com tecnologias digitais.
Diferentemente do hearWHO, que é uma iniciativa internacional da Organização Mundial da Saúde, o Ouvir Brasil foi concebido desde o início pensando também na realidade e na organização do Sistema Único de Saúde (SUS). Assim, mais do que oferecer um teste auditivo, queremos contribuir para ampliar o acesso à identificação precoce da perda auditiva e aproximar as pessoas dos serviços de saúde. É um avanço importante na perspectiva da saúde auditiva pública, da inclusão e da equidade no acesso ao cuidado.
NÚMEROS
430 milhões de pessoas vivem com perda auditiva incapacitante, segundo a OMS
6% da população brasileira apresenta perda auditiva incapacitante;
No Brasil, taxa que pode saltar para até 16% entre os escolares
Ações e coleta de dados em comunidades de povos originários e tradicionais
Dos laboratórios e salas de aula às diversas comunidades — incluindo povos originários e tradicionais —, os pesquisadores coletam dados, orientam e, em alguns casos, promovem o rastreio precoce de eventuais deficiências auditivas. Para muitas dessas pessoas, é o primeiro contato com profissionais fonoaudiólogos. A coleta qualificada de dados é individual, mas à pesquisa interessa especialmente o cruzamento dos diversos parâmetros coletados entre os indivíduos — um diferencial da proposta do Ouvir Brasil em relação ao aplicativo hearWHO, da OMS, e que serve de base ao desenvolvimento da plataforma.
Durante quase um mês — entre setembro e outubro deste ano —, professores e alunos bolsistas da pós-graduação vinculados ao projeto Ouvir Brasil participaram de ações humanitárias e capacitações com a professora visitante Fulbright na UFRN, Dra. King Chung, referência mundial em audiologia humanitária. Um intercâmbio científico, iniciado na primeira visita da Dra. King ao Rio Grande do Norte, ainda em 2019, e que fortalece a pesquisa de desenvolvimento, aprimoramento das ferramentas e técnicas, em alguns momentos voltadas também a parte dos profissionais da fonoaudiologia que atendem na rede SUS no estado.
Uma dessas ações humanitárias de caráter científico, de coleta de dados e capacitação ocorreu na Aldeia Tapará — ou Lagoa do Tapará —, um território habitado pelo povo indígena Tapuia Tarairiú, localizado no limite entre os municípios de Macaíba e São Gonçalo do Amarante, no estado do Rio Grande do Norte. Lá, através de uma ação de extensão sob a orientação da professora Dra. Aryelly Dayane da Silva Nunes Araújo, do Departamento de Fonoaudiologia e do Programa de Pós-Graduação em Fonoaudiologia da UFRN, e da Dra. King Chung, houve a triagem de aproximadamente 60 pessoas, entre adultos e crianças.
A fonoaudióloga Rikarla Sales atua junto a essa Comunidade desenvolvendo atividades na Atenção Primária à Saúde do Município de São Gonçalo do Amarante e enquanto pesquisadora CNPq no projeto Ouvir Brasil, papel essencial nessa etapa que reuniu pesquisadores e parte da população da Aldeia Tapará. Empenho que proporciona a participação dos estagiários do Curso de Graduação em Fonoaudiologia da UFRN, no qual é preceptora, estreitando a relação entre a Academia e sociedade. “Para mim, essa foi uma das maiores riquezas dessa experiência — perceber que a internacionalização não precisa permanecer restrita aos espaços acadêmicos. Ela pode chegar ao território, à população, ao SUS e às pessoas que mais precisam.
O conhecimento produzido e compartilhado ganha ainda mais sentido quando consegue ultrapassar os muros da universidade e produzir impacto real na vida das pessoas. E verdadeiramente conseguimos”.
“Ouvir é um direito de todos. E é um sentido muito importante para nosso processo comunicativo. Embora tenhamos um arcabouço de saúde auditiva bem estruturado, que garante saúde auditiva à nossa população, muitas vezes a gente enfrenta diferentes tipos de barreiras, até mesmo pela dimensão geográfica do nosso país, que, em algumas comunidades específicas, as pessoas tenham acesso a esse cuidado auditivo. Daí a importância desta ação, de vir a uma comunidade com essa dificuldade de acesso, e fornecermos atendimento com baixa densidade tecnológica, mas com maior precisão”, disse a professora Dra. Aryelly Araújo, ao destacar a importância das atividades extensivas com a participação da professora King Chung, orientando e aplicando técnicas em campo, com os estudantes da pós-graduação.
Aryelly complementa: “a gente consegue, aos poucos e mesmo com ações que parecem mais isoladas, dentro da Rede Reab.LITA, tornar uma realidade esse cuidado com a saúde auditiva para todas as pessoas, em todas as faixas etárias, em todos os lugares.”
As informações voltadas à prevenção asseguram a saúde auditiva. Os pesquisadores fizeram exames e através da parceria com a Fulbright Brasil disponibilizaram aparelhos auditivos às pessoas cujos testes confirmaram, em algum grau, um processo de perda auditiva com necessidade de uso dessa tecnologia e que, agora, passam a ser acompanhadas pelos pesquisadores da Rede Reab.LITA.
A sala de aula, sob o olhar atento das professoras Aryelly Nunes e King Chung, funcionou no Conselho Comunitário Indígena Lagoa do Tapará, e teve como anfitriã a cacica Francisca Bezerra.
“Este é um momento importante e muito significativo para nossa comunidade, para nossa aldeia Tapuia Tarairiú, porque tivemos acesso a exames com profissionais muito capacitados, professores e estudantes, e que trouxeram também aqui a professora King Chung. Um trabalho de pesquisa muito importante, e que não deixou de inserir nosso povo”, destacou a cacica Francisca Bezerra, da Aldeia Lagoa do Tapará.

A cozinha da sede do Conselho transformou-se em consultório onde a Dra. King Chung orientou os estudantes da pós-graduação quanto à calibragem dos aparelhos a partir de situações reais. Pessoas da mesma família, como Maria Izabel Santos e Sebastião Avelino Souza, com perdas auditivas e que passaram a usar aparelho estão com acesso à tecnologia que devolveu a qualidade de vida. Para os pesquisadores, a ação naquela comunidade traz dados essenciais, que somados a outras informações, ajudam no desenvolvimento das ferramentas que integram o projeto, a partir de dados dos diferentes brasis que a Ciência vê e ouve em suas mais diferentes frequências da vida real.
A dona de casa Maria Izabel Santos passou por diversos testes auditivos, alguns mais complexos e que dificilmente teria acesso sem a ação acadêmica em uma aula de extensão e pesquisa do projeto Ouvir Brasil na Aldeia Tapará, em São Gonçalo do Amarante. Todas as etapas de triagem e exames mais apurados, sempre sob a supervisão das professoras Aryelly e King Ching, culminaram no rastreio da perda auditiva, com necessidade de uso do aparelho.
Para Izabel, uma porta se abria à inclusão, ao acesso à saúde, e para pesquisadores da Rede Reab.LITA, aquelas informações permitem o monitoramento e resposta dessa paciente à utilização do aparelho. “Muito feliz e vou me adaptar. Importante essa pesquisa, e na minha família há outras pessoas que estão aqui, e que têm problema parecido, e que estão sendo atendidas e a gente conta toda a nossa história pra eles entenderem também o que aconteceu”, afirmou Izabel.

“O ecossistema Ouvir Brasil, nas suas ações de pesquisa aplicada à Comunidade, vem tornando possível inovar o cuidado com a audição e, com isso permitir a inclusão de pessoas com perda auditiva, além de contribuir para que as pessoas mantenham sua audição saudável e evitem novos casos de perda auditiva ao longo da vida. Informação, inovação e Ciência em prol da saúde auditiva”, afirma a professora Deborah Ferrari.
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