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EUA intensificam críticas ao Pix e ampliam tensão comercial com o Brasil

Quase dez meses após a abertura de uma investigação comercial contra o Pix, os Estados Unidos voltaram a direcionar críticas ao sistema brasileiro de pagamentos instantâneos, reacendendo a tensão bilateral e ampliando incertezas sobre possíveis desdobramentos comerciais. A menção ao Pix no relatório anual do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), divulgado em 31 de março, marca uma mudança de tom em relação ao documento anterior e reforça a pressão sobre o modelo operado pelo Banco Central do Brasil.

No National Trade Estimate Report de 2026, o Pix é citado como exemplo de possível barreira comercial, sob a alegação de que o Banco Central cria, opera e regula a plataforma, além de exigir sua adoção por instituições financeiras com mais de 500 mil contas. Segundo o documento, representantes do setor privado americano consideram que o modelo concede tratamento preferencial ao sistema nacional, prejudicando empresas estrangeiras de meios de pagamento.

A reação do governo brasileiro foi imediata. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que “o Pix é do Brasil” e que o país não pretende alterar o sistema. A defesa também encontrou eco fora do país. O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, elogiou publicamente o modelo e sugeriu sua adoção em território colombiano.

Embora a investigação conduzida pelo USTR ainda esteja em andamento e sem prazo para conclusão, especialistas avaliam que os Estados Unidos não têm jurisdição direta sobre o sistema brasileiro. As possíveis medidas se concentram no campo comercial, com base na Seção 301 do Trade Act de 1974, instrumento que permite a adoção de retaliações como tarifas adicionais, restrições a importações ou suspensão de benefícios comerciais.

Na prática, isso poderia incluir desde um novo aumento tarifário sobre exportações brasileiras até a exclusão do país do Sistema Geral de Preferências (SGP), programa que concede vantagens tarifárias a economias em desenvolvimento. Ainda assim, analistas apontam que o uso desse mecanismo tende a funcionar mais como instrumento de pressão política do que como intervenção direta sobre a infraestrutura do Pix.

“A consequência mais plausível não é uma medida direcionada tecnicamente ao Pix, mas sim alguma forma de retaliação comercial mais ampla”, afirma a especialista em regulação econômica Camila Villard Duran.

O caso brasileiro, segundo ela, se insere em uma estratégia mais ampla dos EUA de contestar políticas nacionais em serviços financeiros digitais. O relatório do USTR traz críticas semelhantes a países como Índia, Tailândia e Paquistão, que também desenvolvem sistemas domésticos de pagamento e adotam regras que limitam a atuação de empresas estrangeiras.

Nos bastidores, interlocutores próximos às negociações indicam que é difícil antecipar quais medidas concretas poderiam ser adotadas, caso a investigação conclua pela existência de práticas consideradas desleais. Historicamente, o uso da Seção 301 tem sido limitado, e o escopo da análise atual inclui outros temas além do Pix, como tarifas sobre etanol e questões ambientais ligadas ao desmatamento.

O endurecimento do discurso americano também é associado a fatores recentes no cenário internacional. Entre eles, o bloqueio do Brasil a uma proposta dos EUA na Organização Mundial do Comércio (OMC) para estender a moratória sobre tarifas em transmissões eletrônicas, além de reveses judiciais enfrentados por políticas tarifárias da gestão de Donald Trump.

Do ponto de vista estrutural, especialistas destacam que o avanço do Pix altera o equilíbrio competitivo global ao reduzir a dependência de redes privadas internacionais, como as operadas por grandes empresas americanas do setor de pagamentos. Mais do que uma solução tecnológica, o sistema brasileiro passa a ser visto como parte de uma disputa mais ampla por controle sobre infraestruturas financeiras e dados monetários.

Nesse contexto, o debate ultrapassa a esfera econômica e ganha contornos políticos. No Brasil, o tema já começa a ser incorporado ao discurso público e deve integrar a agenda das eleições presidenciais de 2026, em meio a narrativas que associam o Pix à soberania nacional e à autonomia do sistema financeiro.

Enquanto a investigação americana segue em curso, o cenário permanece aberto, com o desfecho condicionado não apenas a aspectos técnicos, mas também à dinâmica das relações diplomáticas entre Brasília e Washington.

 

Fonte: AgoraRN

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