As confraternizações de fim de ano, tradicionalmente associadas a momentos de união e celebração, também podem se tornar um ambiente propício para a reprodução de violências emocionais dentro das próprias famílias. O alerta é da psicóloga Niane Fernandes, que chamou atenção para os impactos do bullying familiar — prática que, segundo ela, é mais comum do que se imagina e costuma deixar marcas duradouras.
“O bullying familiar é algo que fica ali escondidinho como se não ocorresse. Quando, na verdade, essas ofensas são mais comuns do que a gente pensa”, afirmou a psicóloga, em entrevista à TV Band RN nesta segunda-feira 22.
Niane destacou que esse tipo de comportamento acaba sendo naturalizado dentro das relações familiares, justamente porque muitas vítimas não verbalizam o incômodo. “Muitas vezes não é dito, não é falado que está com incômodo, não é falado que não está gostando. Então aquilo vai se configurando como uma normalidade”, explicou.
Confraternizações potencializam ofensas
Segundo a psicóloga, festas, aniversários e encontros de fim de ano ampliam o risco de comentários ofensivos e constrangedores. Isso ocorre porque esses eventos reúnem um número maior de pessoas e estimulam comportamentos voltados à validação social. “As pessoas também querem ser validadas. Então, fazem algo para que os outros riam, para que os outros achem engraçado. E, infelizmente, pegam ali temas mais delicados da vida do outro”, disse.
Ela ressaltou que a aparência física costuma ser um dos principais alvos. “É muito comum falar sobre a cabeça, sobre o corpo, sobre o dente, sobre o nariz de fulano e tal. E aquilo vira toda aquela piada”, relatou.
Outro fator apontado é a perda de filtros nas relações familiares. “Quando nós estamos em família, parece que a gente perde esse filtro. Porque é um lugar que a gente fica à vontade”, observou. Para a psicóloga, é justamente aí que mora o risco: “Então, muitas vezes, vira, assim, esse ambiente muito vulnerável para que esse tipo de coisa aconteça”.
Durante a entrevista, Niane também explicou que nem sempre o bullying familiar é percebido por quem pratica. Ainda assim, ela pondera que, na maioria das vezes, há consciência do que está sendo dito. “Existem verdades que são ditas através de brincadeiras”, afirmou, ao citar reflexões da psicanálise.
Segundo ela, frases ofensivas costumam ser mascaradas de humor para evitar conflitos diretos. “Ah, é só brincadeira, falei sem querer. E muitas vezes são verdades que estão escondidas e as pessoas, às vezes, não têm coragem de dizer de forma séria”, disse.
Para diferenciar humor saudável de violência emocional, a psicóloga destacou a empatia como critério central. “Eu vejo que está sempre na questão do que é prejudicial para o outro”, afirmou. “Aquilo que, para você, é besteira, para o outro pode ser algo muito significativo e que pode ficar muito marcado na vida dele.”
Grupos mais vulneráveis
Crianças e adolescentes estão entre os grupos mais afetados pelo bullying familiar, segundo Niane Fernandes. “Eles ainda estão na construção da sua personalidade, na construção da sua identidade. Então, eles precisam ser muito preservados”, explicou.
Ela apontou que o silêncio costuma ser uma resposta recorrente nessas situações. Muitos jovens evitam reagir por medo de serem vistos como desrespeitosos. “Então, eles vão aceitando e aquilo vai gerando sequelas.”
Sinais e consequências emocionais
Entre os principais sinais de que alguém pode estar sofrendo bullying familiar, Niane citou mudanças de comportamento. “Começou a não gostar mais de ir para os aniversários, começou a não querer mais fazer parte das fotografias”, exemplificou, acrescentando que isolamento, tristeza e recusa em participar de encontros familiares merecem atenção.
As consequências, segundo ela, podem surgir tanto a curto quanto a longo prazo. “Muitas crianças e adolescentes começam a ter ali uma queda no rendimento acadêmico”, disse. Já no longo prazo, podem surgir quadros de ansiedade e depressão. “Tem adolescente que começa a ter uma dor no estômago quando está se aproximando do aniversário daquela pessoa da família”, relatou.
Para a psicóloga, o papel dos adultos é fundamental na prevenção e no enfrentamento desse tipo de violência. Como estratégia de proteção, Niane defendeu o diálogo e a construção de redes de apoio. Ela também destacou a importância de estabelecer limites de forma clara. “O limite é necessário em todas as relações”, declarou.
Fonte: Agora RN
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