Um sabor de sertão no meio da selva de pedra que é São Paulo. É assim que o Jesuíno Brilhante, restaurante que leva o nome do cangaceiro patuense, se destaca na maior capital brasileira. Localizado no bairro de Pinheiros, na Zona Oeste paulistana, o lugar já comemora quase 10 anos de história, regionalidade e memória.
Jesuíno Alves de Melo Calado, o Brilhante, é aquele que emprestou o nome ao restaurante. Nascido no município norte-rio-grandense de Patu, no século 19, ele cresceu como um agricultor e se tornou um cangaceiro, em uma espécie de “Robin Hood” na região potiguar. Ele saqueava comboios do governo com o objetivo de alimentar os mais pobres do sertão.
Patu é o mesmo município de nascimento de Rodrigo Levino, o idealizador do restaurante que conquistou o paladar do país, e que conta que Jesuíno, o cangaceiro, foi inspiração para o nome do empreendimento porque via “um personagem que podia ser mais conhecido, inclusive na cidade de Patu”, nas palavras dele.
Rodrigo é jornalista e, enquanto buscava outro meio para se manter, encontrou a oportunidade de inaugurar um restaurante com aquela comida que ele conhece desde a infância. Foi a partir disso que, em 2016, ele resolveu contar a história do sertão do Rio Grande do Norte por meio da culinária única que o solo potiguar tem.
“Era algo novo, mas ao mesmo tempo familiar porque minha família teve restaurante a vida inteira em Caicó”, conta Rodrigo.
Assim, o investimento foi não só um marco de Patu, mas também de Caicó, lugar que teve a culinária reproduzida nos pratos do Jesuíno Brilhante e na memória de Rodrigo. “Eu foquei no cardápio da minha infância em Caicó”, disse ele. O processo de abrir o restaurante, para além das comidas servidas, foi relativamente rápido, segundo o idealizador. “Também tive ajuda de gente que conheci no meio gastronômico enquanto eu era jornalista de gastronomia na última fase da carreira”, declara.
Mas não foi do dia para a noite que o restaurante surgiu. Ele também foi fruto de muita procura no solo paulista. Rodrigo chegou a buscar ingredientes para as receitas, que também foram pesquisadas e testadas, rodando mais de 90km em um só dia dentro de SP. Era nata, farinha, macaxeira, queijo e mais uma variedade de elementos que precisavam ser de qualidade e de um sabor que lembrava aquele lugar que deixou quando foi morar em São Paulo, há mais de 20 anos atrás.
Tudo foi escolhido a dedo para se entrelaçar perfeitamente com os produtos que já seriam levados do RN para SP. “A escolha dos produtos e fornecedores foi feita já no começo, antes de abrirmos, e desde então organizamos essa vinda de produtos pra cá, quase todos de fornecedores que já eram fornecedores dos meus pais”, explicou.
Já a carne bovina, que é parte de uma das principais composições servidas no restaurante, a carne de sol na nata, foi importada do próprio pai, João Batista Rodrigues, direto de Caicó. O município do Seridó Potiguar, que foi lar da família por muito tempo, também teve o título de capital da carne de sol no RN e apareceu nos pratos do Jesuíno.
Para além dos sabores de casa, Rodrigo também inventou uma espécie de reprodução do lar do interior potiguar. As referências que ele trouxe consigo para São Paulo ficaram eternizadas no espaço que se parece com uma casa e aconchega a quem visita. As paredes, com elementos que a gente já conhece: aquele chapéu e o gibão de couro, tradicionais dos vaqueiros nordestinos; a louça, por sua vez, é rústica, de alumínio. “Tentei reproduzir um ambiente simples de casa do sertão”, é o que diz Rodrigo Levino.
O cardápio não podia ser diferente. Além da carne de sol na nata, o Jesuíno convida para uma viagem pelos sabores do Nordeste, com arroz de leite, macaxeira cozida, farofa de cuscuz e feijão de corda entre os acompanhamentos, uma variedade de baiões como pratos únicos e porco de sol e bife ancho de sol como opções para além da carne de sol.
Cocada, goiabada, doce de leite, coco verde, caju e mel de engenho são alguns dos ingredientes nas sobremesas da casa, a maioria vindos de Caicó, segundo Levino. “Produzimos na casa cocada e manjar, e temos uma sobremesa com sorda, a bolacha mata-fome, com nata fresca e café especial”, cita.
Identidade potiguar
Apesar das mudanças que ocorrem a cada ano, ele diz que tenta manter a identidade: “É um trabalho difícil manter nossas características potiguares intactas, mas aos poucos isso se ajustou na logística de trazer produtos do RN pra cá e também manter o cardápio”, revelou.
E a ideia rendeu sucesso. O idealizador conta que a recepção dos sabores potiguares na cidade é excelente. “O paulistano é aberto e curioso a novas histórias e cozinhas, a recepção sempre foi carinhosa, tanto que já vamos pra 10 anos”, completa.
Rodrigo Levino também é embaixador do Feito Potiguar, programa do Sebrae RN pensado para valorizar a produção local do Rio Grande do Norte e que destaca produtos que possuem conexão com a economia e a identidade do estado. “Eu acho que é um bom reconhecimento do nosso trabalho”.
Rodrigo cita, ainda, quais alimentos do solo norte rio grandense ele não deixa de levar para os pratos do Jesuíno: “Eu trago feijão de corda, arroz vermelho, manteiga, doce, cachaça, bolacha. Eu acho que é um reconhecimento importante da gente estar há 10 anos mantendo isso e também acho que é um estímulo para servir de exemplo até para os próprios restaurantes do RN”, concluiu.
A analista técnica do Sebrae-RN, Ana Carolina Ribeiro, fala um pouco mais sobre os objetivos do programa: “É a valorização do que é produzido aqui, do que é feito aqui, é para que a gente possa ter o fortalecimento desse orgulho de produzir. A ideia é que a gente se una em prol desse único objetivo, que é valorizar tudo o que é daqui”.
Hoje, são 134 empresas, entre restaurantes também, que receberam o selo do programa e crescem em conjunto com a identidade que só o RN tem. “Isso tem trazido um resultado muito bacana, a gente tem visto um movimento acontecer muito bonito até. O movimento ainda está dando os seus primeiros passos, mas [estamos] colhendo muitos frutos”, disse.
O resultado disso tudo são relatos de sucesso, como o de Rodrigo, que investiu na ideia do Jesuíno Brilhante e permanece, até hoje, como um lar potiguar fora do Rio Grande do Norte. “As empresas estão super satisfeitas. A gente tem colhido alguns depoimentos deles, de motivar mesmo o nosso trabalho. Empresários que dizem que sempre tiveram dificuldade de entrar em algum mercado, e hoje esse próprio mercado busca o produto dele”, conclui Ana Carolina.