Por muito tempo, fantasia foi sinônimo de prateleira: roupa pronta, acessório padrão, personagem repetido. Mas, nos últimos anos, a lógica da folia vem mudando. Cada vez mais, o Carnaval se tornou território de experimentação estética, reaproveitamento criativo e afirmação identitária. Em vez de comprar, muita gente prefere criar. Em vez de copiar, reinterpretar.
É nesse movimento que o influenciador potiguar Pedro Monteiro se destaca. Criador de looks autorais que misturam brilho, artesanato, referências pop e vivências pessoais, ele construiu uma audiência nacional justamente por transformar roupas em narrativas.
As produções, aguardadas com ansiedade pelos seguidores, abriram portas para a carreira de modelo – incluindo convites para desfilar na São Paulo Fashion Week –, algo antes impensável para quem cresceu entre linhas, tecidos e máquinas de costura no interior do Rio Grande do Norte.
Pedro é de Caicó e tem uma relação orgânica com a moda desde a infância. A mãe, Irene Vieira, é modista. O ateliê fazia parte de sua rotina. O aprendizado veio antes mesmo da consciência profissional. Hoje, esse repertório aparece em cada customização, em cada escolha de textura ou cor, especialmente durante o Carnaval – período que ele vê como extensão natural da arte.
“Eu acho que assim como a expressão artística, o Carnaval transmite liberdade, a energia que as pessoas sentem quando estão se preparando ou durante o período do Carnaval é de que elas estão livres para serem como elas realmente são, vestindo o que gostam e entregando para o mundo suas melhores versões”.
A folia, para Pedro, é palco.
Customizar é reaproveitar
Para quem quer fugir das fantasias com cara de industrializadas, ele defende começar pelo próprio guarda-roupa. Camisetas esquecidas, acessórios parados, até objetos decorativos podem ganhar nova função. O processo, além de criativo, tem algo de terapêutico.
“Customizar roupas é uma ótima escolha para o Carnaval. Você ressignifica peças que talvez estejam paradas há um tempo, exercita a mente. É quase uma terapia colocar a mão na massa e ainda faz moda circular de forma sustentável. Sempre dá para reaproveitar peças de roupas, acessórios, até decorações de casa que estejam guardadas. Tudo pode ganhar um novo significado no Carnaval. É só pensar um pouquinho e buscar referências algumas referências”.
Essa lógica do reaproveitamento atravessa toda a sua produção. Bordar, rebordar, pintar, tingir tecidos, brincar com colorimetria e reconstruir modelagens fazem parte do método – uma herança direta da infância passada no ateliê da mãe.
“Acho que sempre que nos aventuramos em fazer essas produções, nós não só aprendemos coisas novas como colocamos em prática tudo que sabemos. As possibilidades são infinitas. Nós bordamos, rebordamos, pintamos, brincamos com colorimetria tingindo peças, reaproveitamos e usamos tudo que a nossa imaginação permite”.
Kit básico da folia
Se existe uma receita mínima para transformar uma peça simples em look carnavalesco, Pedro não romantiza: é prática, acessível e bem-humorada. “Com certeza brilhos, franjas e cola quente fazem toda a diferença. É o kit básico para qualquer produção de Carnaval”.
O impacto visual não precisa, necessariamente, vir acompanhado de grandes gastos. Alterar a modelagem, aplicar pedrarias ou buscar tutoriais nas redes sociais já pode mudar completamente o resultado.
“Mudar a modelagem das peças, pregar uns brilhinhos… isso tudo faz a diferença. Buscar referências e tentar colocar em prática também é essencial. Eu adoro ver tutorial de customização nas redes sociais. Tem muita coisa fácil de fazer que entrega um resultado maravilhoso”.
Nordeste é rico em trabalhos artesanais
No Nordeste, essa criatividade dialoga diretamente com uma tradição artesanal potente – bordados, crochê, macramê e técnicas manuais que carregam identidade cultural.
“Todas essas técnicas já transmitem arte pura e podem ser inseridas de várias formas. Dá para fazer peças de cabeça, biquínis, customizar outras peças.. o Nordeste é extremamente rico nos trabalhos artesanais”.
Apesar do brilho ser quase obrigatório, Pedro acredita que o essencial vai além da estética. “Atitude é essencial. Quando a atitude está em jogo, o brilho e o look reluzem naturalmente”. Ele conta que costuma deixar a inspiração fluir, absorvendo referências pop e experiências pessoais até entender o que quer comunicar naquele ano.
“Eu vou deixando a energia fluir e sentindo como posso transformar isso nas produções. Amo referências pop e expressar minhas próprias vivências nas roupas”. Ainda assim, alerta para um erro comum: deixar tudo para a última hora. “Eu acho que a falta de planejamento acaba atrapalhando um pouco”.
Moda como espaço de inclusão
Como criador independente, Pedro vê o Carnaval como uma das poucas épocas do ano em que padrões estéticos se dissolvem – e o diferente vira referência. “Acho que nesse momento os padrões estéticos que fogem ‘da curva’ acabam virando referências para os demais”.
Suas produções costumam carregar narrativas muito pessoais. Em 2023, por exemplo, transformou sua primeira experiência mergulhando em Natal em conceito visual. “Eu gosto de expressar a minha vida. O resultado das roupas é sempre a materialização dos sentimentos. Quando mergulhei pela primeira vez em Natal, eu decidi que aquele seria o tema do meu Carnaval de 2023, e todas as minhas produções eram sobre o fundo do mar. Tinha macramê imitando rede de pesca, body chain de pérolas, cropped feito com conchas do mar, e por aí vai”.
Para quem ainda tem insegurança em usar a moda como forma de expressão, o conselho é direto – e herdado da avó. “Eu diria algo que minha avó sempre me fala do jeito dela. ‘Só se veve uma vez!’. Acho que não é mais tempo de ficar buscando por validação de ninguém ou tentando viver para agradar os outros. Realmente, tem que viver para si e tentar aproveitar os melhores momentos da forma como a gente gostaria. Não tem nada melhor do que não ligar para a opinião dos outros”.
Novidades
Além de fortalecer sua identidade artística, Pedro usa o Carnaval como vitrine para levar referências nordestinas a outros espaços, mantendo diálogo constante com os seguidores.
“Primeiramente, eu tento manter a relação de comunicação com meus seguidores através das redes sociais: mostrando processo de produção, entregando conteúdos usando os looks… Acho que isso fortalece a relação com quem me acompanha e também atinge novos públicos”.
Para este ano, ele adianta novidades: referências pop, moda nacional, muito brilho e um passo importante na carreira. “Esse ano tem referências pop, moda nacional, muito brilho. E além de ter feito minhas próprias produções, eu fiz, pela primeira vez, duas produções de Carnaval para uma cantora nordestina que vem ganhando cada vez mais destaque e reconhecimento no cenário musical nacional. Foi incrível fazer parte desse projeto e eu nem acreditei quando a equipe dela me procurou”.
Ao resumir o próprio Carnaval, Pedro escolhe três palavras que funcionam quase como manifesto: “liberdade, vida e amor”.