A eliminação da Seleção Italiana de Futebol para a Copa do Mundo de 2026, após derrota nos pênaltis para a Seleção da Bósnia e Herzegovina na repescagem europeia, consolida um ciclo de declínio que se estende desde o título mundial de 2006. A equipe empatou por 1 a 1 no tempo regulamentar, mas voltou a fracassar no momento decisivo, ampliando para três edições consecutivas o período fora do principal torneio do futebol mundial .
O desempenho recente reflete uma combinação de fatores estruturais. Até o início dos anos 2000, a liga italiana figurava entre as mais fortes da Europa, atraindo talentos e acumulando conquistas. Esse cenário foi impactado por escândalos como o Calciopoli, esquema de manipulação de resultados na temporada 2004/05 que envolveu clubes como Juventus, AC Milan, Fiorentina e Lazio. A Juventus chegou a ser rebaixada à Série B, provocando a saída de jogadores relevantes e reduzindo a competitividade do campeonato.
O impacto do escândalo coincidiu com a perda de protagonismo internacional e a redução na formação de novos talentos. Após uma sequência de vencedores da Bola de Ouro até 2007, o país deixou de revelar jogadores com o mesmo protagonismo global. A crise técnica foi agravada por decisões institucionais. Um relatório elaborado em 2011 pelo ex-jogador Roberto Baggio, com propostas de modernização, não foi implementado. “Apresentei meu projeto em 2011, mas eles continuaram com palavras vazias”, afirmou à época .
Nos últimos anos, a Federação Italiana buscou reagir com mudanças na gestão e programas de formação. Em 2025, nomeou Cesare Prandelli como diretor técnico, que apontou a base como principal fragilidade. “Se há dez anos tivéssemos tido a sorte de contar com um talento como Lamine Yamal, nós o teríamos feito fugir”, declarou, ao criticar o modelo de desenvolvimento de jogadores .
Especialistas também associam o declínio ao isolamento competitivo. O baixo número de atletas italianos atuando em ligas de elite, como a Premier League, e a alta presença de estrangeiros no campeonato nacional são apontados como fatores que limitam o desenvolvimento interno. Ainda assim, comparações com países como Inglaterra, França e Bélgica indicam que a presença de estrangeiros não é, isoladamente, um entrave ao desempenho das seleções .
Mesmo conquistas recentes, como o título da Eurocopa em 2021, não alteraram a trajetória. Para o ex-goleiro Gianluigi Buffon, os resultados atuais são consequência de decisões tomadas ao longo das últimas duas décadas. “Os resultados são consequência de 20 anos atrás, quando nos apoiávamos em nossas forças, em Cannavaro, Buffon e Totti, pensando que seriam eternos” .
A crise levou a mudanças institucionais. O presidente da federação, Gabriele Gravina, deixou o cargo após pressão política, enquanto o técnico Gennaro Gattuso também se desligou. O ministro do Esporte, Andrea Abodi, defendeu publicamente uma reconstrução do futebol italiano. O cenário atual reforça a necessidade de revisão estrutural em um sistema que perdeu competitividade no cenário internacional.
Fonte: Por O Correio de Hoje